Outro dia vi um meme falando que no dia do juízo final as mensagens inbox seriam publicadas num painel. Eu ainda penso que se você quer realmente causar estrago nas suas relações você deve fuçar não as mensagens inbox, mas o histórico de pesquisa do face e do google. Você vai saber exatamente em quem e em que sua cara metade realmente pensa, e por quem realmente se interessa. Você aguenta?
Estamos o tempo todo conectados, e o Facebook e o Google (principalmente, mas náo só) tem acesso aos nossos dados mais íntimos, de forma que podemos com certeza afirmar que eles tem poder de materializar os pensamentos. E algoritmos cada vez mais complexos podem inclusive prever se você vai se divorciar com base no tipo de compra que você realiza no seu cartão de crédito. No mundo globalizado, na era da informação, estamos todos nus perante as grandes corporações, mas e na vida privada? Você realmente conhece a pessoa que divide a cama com você, e o mais importante: será que você aguenta conhecer?
Crescemos cultivando muitas crenças em relação ao amor, e essas crenças norteiam o nosso sentir e as nossas ações. Sem perceber, criamos previamente um modelo de relação que se encaixa nas nossas necessidades imediatas, crenças e expectativas e abrimos um processo seletivo pra arrumar alguém que se encaixe na vaga de amor das nossas vidas. E quando arrumamos, é muito comum que precisemos reprimir ou ignorar algumas características na tal pessoa, para não prejudicar nossa fantasia. No fim, quase sempre está tudo certo, porque a outra pessoa vai fazer o mesmo conosco. Num nível limitado de consciência sobre esses mecanismos, é possível manter uma satisfação proporcionalmente limitada.
Acontece que não sabemos que a nossa fantasia é só uma fantasia, e que nossas crenças não necessariamente condizem com a realidade. Nós temos convicção de que é assim que as coisas devem ser e duvidamos até mesmo da boa índole de quem aja diferente do que acreditamos ser o correto. Muita gente se maltrata duramente quando se percebe querendo, agindo ou desejando em inconformidade com aquilo que acredita. Se aceitar integralmente como é é um importante e difícil passo para a evolução pessoal. Nós negamos nossas fraquezas e defeitos, enquanto exaltamos nossas virtudes e qualidades, e assim nos distanciamos cada vez mais de quem realmente somos.
Nos relacionamentos o apego a esse sistema de crenças impede que nos tornemos verdadeiramente íntimos de alguém. Sabemos que não somos quem nossos parceiros acham que somos, e temos muito medo de descobrir que eles também estão mentindo pra nós. Algumas pessoas diante desse impasse passam a fazer todo tipo de verificação sobre a fidelidade do companheiro, fuçando no histórico de ligações, nas conversas do whatsapp e facebook, e os mais corajosos, nos históricos de pesquisa. Em contrapartida, as pessoas também aprimoram seus mecanismos de defesa contra invasões de privacidade, com senhas cada vez mais complexas no celular, apagando automaticamente as mensagens que recebem e algumas vezes zerando o histórico de pesquisa, ou apagando apenas o que for suspeito. Existe até um app, o snapchat, que apaga automaticamente em alguns segundos as mensagens que são enviadas.
Embora muitas vezes nos vangloriemos de nossa sinceridade, e nos coloquemos no papel de vítimas quando descobrimos que que a pessoa com quem estamos não é exatamente como se mostra, o fato é que é muito difícil olharmos com honestidade para os nossos relacionamentos, porque isso nos obrigaria a olhar com honestidade pra nós mesmos. Reconhecer crenças equivocadas, relacionamentos que não fazem sentido, seu lado escuro, carências e a forma como lidamos com ela, modificar o comportamento, assumir a responsabilidade por nós mesmos e o que nos acontece, isso não é nada fácil. Mas "vai doer e vai passar". Quando nos aceitamos por inteiro precisaremos menos da aceitação alheia, e nos mostrando mais estaremos mais atentos às pessoas com quem nos relacionamos, para enxergá-las mais. Quando nos aceitamos por inteiro nos amamos mais, e sabemos que está tudo bem se alguém não nos amar pelo que somos, porque já temos amor o suficiente. Não precisamos mudar os outros quando nos aceitamos completamente, porque sabemos que o amor não tem condições pré-estabelecidas, mas já conhecemos bem o que nos faz bem, então sabemos que somos livres pra ir embora a qualquer momento, e que tudo bem com isso.
Nos salvar de nós mesmos, de nossas crenças equivocadas e fantasias é uma tarefa muito difícil, mas ainda assim tem resultados mais satisfatórios que tentar encaixar outras pessoas nessas fantasias. Quando sabemos identificar quem somos, como funcionamos, quais nossas fantasias e nossas verdades, podemos enxergar e aceitar as pessoas como são, sem necessidade de verificações de fidelidade. Porque a fidelidade mais importante, que é a de nós com nós mesmos nós já teremos.
Estamos o tempo todo conectados, e o Facebook e o Google (principalmente, mas náo só) tem acesso aos nossos dados mais íntimos, de forma que podemos com certeza afirmar que eles tem poder de materializar os pensamentos. E algoritmos cada vez mais complexos podem inclusive prever se você vai se divorciar com base no tipo de compra que você realiza no seu cartão de crédito. No mundo globalizado, na era da informação, estamos todos nus perante as grandes corporações, mas e na vida privada? Você realmente conhece a pessoa que divide a cama com você, e o mais importante: será que você aguenta conhecer?
Crescemos cultivando muitas crenças em relação ao amor, e essas crenças norteiam o nosso sentir e as nossas ações. Sem perceber, criamos previamente um modelo de relação que se encaixa nas nossas necessidades imediatas, crenças e expectativas e abrimos um processo seletivo pra arrumar alguém que se encaixe na vaga de amor das nossas vidas. E quando arrumamos, é muito comum que precisemos reprimir ou ignorar algumas características na tal pessoa, para não prejudicar nossa fantasia. No fim, quase sempre está tudo certo, porque a outra pessoa vai fazer o mesmo conosco. Num nível limitado de consciência sobre esses mecanismos, é possível manter uma satisfação proporcionalmente limitada.
Acontece que não sabemos que a nossa fantasia é só uma fantasia, e que nossas crenças não necessariamente condizem com a realidade. Nós temos convicção de que é assim que as coisas devem ser e duvidamos até mesmo da boa índole de quem aja diferente do que acreditamos ser o correto. Muita gente se maltrata duramente quando se percebe querendo, agindo ou desejando em inconformidade com aquilo que acredita. Se aceitar integralmente como é é um importante e difícil passo para a evolução pessoal. Nós negamos nossas fraquezas e defeitos, enquanto exaltamos nossas virtudes e qualidades, e assim nos distanciamos cada vez mais de quem realmente somos.
Nos relacionamentos o apego a esse sistema de crenças impede que nos tornemos verdadeiramente íntimos de alguém. Sabemos que não somos quem nossos parceiros acham que somos, e temos muito medo de descobrir que eles também estão mentindo pra nós. Algumas pessoas diante desse impasse passam a fazer todo tipo de verificação sobre a fidelidade do companheiro, fuçando no histórico de ligações, nas conversas do whatsapp e facebook, e os mais corajosos, nos históricos de pesquisa. Em contrapartida, as pessoas também aprimoram seus mecanismos de defesa contra invasões de privacidade, com senhas cada vez mais complexas no celular, apagando automaticamente as mensagens que recebem e algumas vezes zerando o histórico de pesquisa, ou apagando apenas o que for suspeito. Existe até um app, o snapchat, que apaga automaticamente em alguns segundos as mensagens que são enviadas.
Embora muitas vezes nos vangloriemos de nossa sinceridade, e nos coloquemos no papel de vítimas quando descobrimos que que a pessoa com quem estamos não é exatamente como se mostra, o fato é que é muito difícil olharmos com honestidade para os nossos relacionamentos, porque isso nos obrigaria a olhar com honestidade pra nós mesmos. Reconhecer crenças equivocadas, relacionamentos que não fazem sentido, seu lado escuro, carências e a forma como lidamos com ela, modificar o comportamento, assumir a responsabilidade por nós mesmos e o que nos acontece, isso não é nada fácil. Mas "vai doer e vai passar". Quando nos aceitamos por inteiro precisaremos menos da aceitação alheia, e nos mostrando mais estaremos mais atentos às pessoas com quem nos relacionamos, para enxergá-las mais. Quando nos aceitamos por inteiro nos amamos mais, e sabemos que está tudo bem se alguém não nos amar pelo que somos, porque já temos amor o suficiente. Não precisamos mudar os outros quando nos aceitamos completamente, porque sabemos que o amor não tem condições pré-estabelecidas, mas já conhecemos bem o que nos faz bem, então sabemos que somos livres pra ir embora a qualquer momento, e que tudo bem com isso.
Nos salvar de nós mesmos, de nossas crenças equivocadas e fantasias é uma tarefa muito difícil, mas ainda assim tem resultados mais satisfatórios que tentar encaixar outras pessoas nessas fantasias. Quando sabemos identificar quem somos, como funcionamos, quais nossas fantasias e nossas verdades, podemos enxergar e aceitar as pessoas como são, sem necessidade de verificações de fidelidade. Porque a fidelidade mais importante, que é a de nós com nós mesmos nós já teremos.
Excelente texto! Profundo e complexo, o que se espera de uma Ana Maria. Fui contemplado em inúmeros aspectos e poderia reproduzi-los aqui para a discussão. O que você mostrou bem e com muita clareza é que não há fórmula mágica para um relacionamento afetivo-amoroso ser genuíno e construtivo. Tudo depende da dinâmica de dois seres, igualmente iguais, porém igualmente diferentes.
ResponderExcluirOs jargões que aprendemos por aí e que em tese resolvem tudo, tais como "você-precisa-ter-mais-amor-próprio" (em outras palavras, gostar de si mesmo e permitir-se ser respeitada e amada como lhe é de direito) ou que para que um relacionamento seja efetivo há pressupostos "naturais" - a passividade da mulher em relação aos desmandos da sociedade masculina - são inócuos. Na era da efemeridade e da superficialidade da mercadoria, você mostrou uma verdade, que talvez eu considere a única absoluta: "ter reflexão e pensamentos próprios é a tônica da questão. Ser uma mulher pensante (algo que é muito sexy, diga-se de passagem, constatação que não é uma cantada)." O que se espera de alguém que, de fato, goste de você é admiração. Porque mesmo os que não se relacionam amorosamente, já te admiram.