De 2008 a 2013 minha vida foi estudar pra concursos. Estudei muito, fiz muita prova, simulado, passei em alguns concursos até achar o emprego onde estou hoje. E logo nas minhas primeiras provas eu aprendi uma lição que foi fundamental pra ter sucesso nas outras provas que vieram: não cair na armadilha de encarar questões difíceis como desafios pessoais. Eu estudava duro e podia falar tranquilamente e por horas sobre o programa do edital, mas às vezes uma questão era formulada de uma forma que me deixava dúvidas, ou abordava uma particularidade de um assunto que eu não havia visto ou não dominava. Embora a tendência de todo estudante apaixonado seja entender e resolver a questão, logo aprendi que muitas vezes o ego nos prega peças. Numa prova onde você tem cerca de três minutos e meio para resolver cada questão, perder quinze minutos tentando resolver uma questão que você obviamente não sabe ou não se lembra é um tiro no pé. Às vezes a resposta tá nas outras questões, ou às vezes você sabe todas as outras e essa nem vai fazer diferença. Gerenciar o tempo é importante, valorizar seus pontos fortes também. Perder muito tempo com algo que você não sabe é se sabotar e não se permitir ter sucesso, mesmo tendo estudado muito e aprendido um monte de coisas. E às vezes nenhuma questão parece certa porque nenhuma é certa mesmo, às vezes a banca organizadora do concurso acaba cancelando a dita cuja e atribuindo o ponto a todos os candidatos. Perder tampo pra quê?
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| Perder tempo com o que não sabe é o caminho mais curto para não passar no concurso |
Sempre me lembro disso quando falo de questões mal-resolvidas em relacionamentos, porque é bem assim que nos comportamos muitas vezes. Nossa mente entra num looping infinito de tentar entender como tudo aconteceu do jeito que aconteceu, porque né, podia ter sido tão legal. Se eu não tivesse dito isso ou feito aquilo, ela disse que não quer mas continua me dando atenção, se não houvesse interferências externas, se não fosse a distância, a conjuntura política, a guerra do Iraque... Nossa mente começa a inventar zilhões de motivos para manter-se apegada a situações que não mais existem, e nos impedir de entrar em novas situações e conhecer novas pessoas. Outro dia um amigo querido me contou que acabou um relacionamento bacana pra tentar de novo com a ex-namorada porque eles tinham uma história mal-resolvida, mas que já voltou da casa dela querendo terminar de novo, porque a insatisfação de antes voltou. Entre risos eu disse a ele que histórias mal resolvidas não são um desafio, mas um convite ao esquecimento. Esqueça, ponha de lado, deixe quieto, aceite! Afinal pessoas não são números exatos, e por mais que você possa querer aquela pessoa novamente na sua vida, é óbvio que não é lá que ela quer estar. E talvez nem você queira, se olhar honestamente.
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| Sua mente entra num looping infinito tentando resolver o que não tem resolução |
Temos uma dificuldade absurda em aceitar as pessoas como elas realmente são, começando por nós mesmos. Nossas reais motivações e inclinações podem ser um mistério para nós, já que aprendemos desde pequenos o "jeito certo" de amar e ser amado. Já sabemos também o que podemos e o que não podemos deixar as pessoas saber a nosso respeito, que nossas emoções podem ser um incômodo para algumas pessoas, que se formos autênticos e espontâneos assustaremos os outros. Nesse mundo de aparências e de pessoas perfeitas, nós nos desconectamos de nossa real essência, e passamos a buscar alguém que valide nossas percepções, alguém que se encaixe nas nossas expectativas; Como lidar quando a pessoa escolhida não se comporta segundo a nossa cartilha? Como acreditar no amor de alguém que se comporta diferente daquilo que eu aprendi que era o certo? Como preencher o vazio de uma relação que se enquadra nas expectativas sociais mas que carece de cumplicidade, paixão e respeito? As histórias mal-resolvidas nascem quando a conta não fecha, às vezes existe sentimento de sobra mas a "forma" não é a que se esperava. às vezes a "forma" é perfeita, mas falta o sentimento de se estar no lugar certo, com a pessoa certa.
Podemos passar nossa vida inteira entrando e saindo de relacionamentos pelos mesmos motivos, enquanto não percebemos que tem algo de errado com nossas expectativas, e que todo o amor que estamos buscando fora de nós, nós já temos. Só é preciso abrir os olhos e a cabeça. Os olhos, para reconhecer que, embora nem sempre seja da maneira que você considera certa ou ideal, muitas pessoas já demonstraram e demonstram por você amor incondicional, apesar do seu gênio, apesar das condições difíceis, apesar de qualquer situação externa, a começar pelos seus pais. E a cabeça, para se libertar das crenças que te limitam a ser o que seus pais queriam que você fosse, o que a sociedade quer que você seja, o que seu círculo de amigos acha que você é, o que você vem tentando ser. É preciso uma boa dose de honestidade para avaliar quanto dos outros tem nesse eu que você construiu e sai exibindo por aí. Quanto medo de não ser aceito ou amado pode existir em você. Nossa ilusão acerca do que somos e do que devemos ser é o que nos separa do amor incondicional que já temos, e que nos impede de travar verdadeiro contato com as pessoas que dizemos amar. Nosso alter ego sai por aí classificando pessoas e suas atitudes como boas ou ruins, usando como parâmetro uma duvidosa escala de valor construída sobre os medos e feridas emocionais de toda uma vida.
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| A história já acabou faz um tempão e só você não percebeu |
A crença de que existe alguma regra para se viver relacionamentos, de que alguém vai nos dar o conforto e o amor que procuramos, a falta de aceitação das pessoas como elas são, o apego e a necessidade de ter tudo resolvido ao próprio modo são ingredientes comuns a mentes que ficam tentando resolver histórias como se fossem questões de prova. Acreditamos que se nos comportarmos de um certo modo ganharemos um estrelinha e tudo o que desejamos, e quando isso não acontece, nosso sistema buga. Achamos que o que é melhor pra nós é melhor pro outro, e nos ressentimos quando ele quer algo diferente. Achamos que podemos consertar as histórias "agora eu quero", "agora eu aceito", "eu mudei", ou "se você mudar...". Não é uma equação, não tem fórmula, ninguém nos deve nada.
Parece então que o caminho é um só, e é pra dentro. Nomear o que nos aflige e magoa, questionar nossas crenças, aceitar nossas fraquezas, carências, dores e tristezas, chorar nossos lutos, deixar ir o que já foi. Perceber que não importa o que a outra pessoa faça, só você tem o poder de se colocar e de sair de qualquer situação, e então se dedicar a compreender o que é que te mantém ali. Livrar-se do medo da solidão, e apropriar-se da sua solitude. Perceber que amor se compartilha, porque já estamos cheios dele, a sensação de falta é só sua mente limitada te enganando.
É claro que a tal pessoa que tanto gostamos pode voltar um dia, que o relacionamento pode ser retomado e ser diferente. Mas isso depende muito mais do empenho e da capacidade de cada uma das partes em curar suas próprias feridas e desfazer-se das ilusões, do tempo e do acaso, que da sua vontade e empenho em "resolver" o que está "mal-resolvido". Se não desapegamos, não podemos nos desfazer das ilusões. Uma intenção de mudança para atrair de volta uma pessoa que já foi é auto-engano. É uma limitação auto-imposta a uma situação que não apresenta mais nenhum potencial de crescimento, só de sofrimento.
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| Aceite seu passado, viva seu presente |
Cada relacionamento é uma oportunidade de aprendizado, e não uma questão de concurso. Em vez de nos torturar por noites a fio pensando nos motivos pelos quais "não deu certo", podemos focar em tudo o que aprendemos e compartilhamos nesse relacionamento. Encontrar em nós mesmos as ações e reações que contribuíram para que tudo acontecesse como aconteceu, e fazer diferente numa próxima vez. Da mesma forma que outros concursos vem, outras oportunidades de relacionamento virão também. Se aprendermos a encontrar as lições e assumir a responsabilidade que nos cabe em cada relacionamento, estaremos aptos a não repetir os mesmos equívocos. Nos livraremos daquela sensação incômoda de ver nossos relacionamentos começarem e acabarem da mesma forma, como se fossem remakes de filmes antigos e criaremos novas histórias, que nos trarão novas lições.
Então, para histórias mal-resolvidas: aceite, e esqueça. Contemple a experiência com olhar honesto e questionador, assuma suas responsabilidades, aceite a escolha do outro, extraia suas lições e siga em frente. O melhor sempre está por vir.




Perfeito ! Obrigada!
ResponderExcluirGratidão!
ExcluirAdorei seu texto, Ana!
ResponderExcluirLinda!
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