Nos últimos dias surgiram muitas oportunidades de reflexão sobre caminho espiritual e maneiras de colocar em prática aqueles que acreditamos ser os aprendizados mais relevantes para as buscas que fazemos. Em meio a um mar de mistérios, práticas e rituais, a preocupação em fazer o que deve ser feito, da maneira certa, com o apoio dos guias corretos e seguindo as escolas mais elevadas parece ocupar a mente e drenar muito da energia de pessoas que assim como eu procuram uma forma de se conectar com o divino. Olhando para essas questões a partir da minha própria experiência percebo que pode ser proveitoso entender de onde se origina a busca espiritual e o que ela significa para ter clareza sobre pontos que pra muitos de nós são importantes, como carma, reforma íntima e disciplina nas práticas espirituais.
O processo de socialização nos distancia, de forma violenta, da nossa essência. Conforme vamos crescendo, vamos gradualmente passando por um processo de robotização a partir da evitação da dor e da busca por aceitação, que faz com que percamos muito do acesso à nossa intuição, ao nosso corpo como fonte de prazer e às nossas emoções. Enquanto isso, a escola, as instituições e o sistema nos induzem a desenvolver cada vez mais nossa mente e racionalidade, o que acentua o desequilíbrio entre as polaridades masculina e feminina. Como resultado, nos tornamos excessivamente mentais e ativos, vivendo a vida como um jogo de guerra (energia masculina exacerbada) ao mesmo tempo que não sabemos lidar com nossas emoções mais primitivas, já que passamos a vida inteira negando e enterrando aquilo que sentimos. A passividade, a vulnerabilidade e a demonstração das nossas emoções são encarados como sinais de fraqueza (repressão do feminino). Ansiedade, depressão, bipolaridade e outros distúrbios psiquiátricos são o preço que pagamos por essa maneira insana de levar a vida.
Quando descobrimos a espiritualidade como um meio efetivo de ajuda, é muito comum ficarmos maravilhados com as primeiras experiências. Pode ser numa igreja católica, num retiro de meditação ou num terreiro de umbanda, quando alcançamos aquele momento de conexão com o divino, nós descobrimos que há um outro jeito de se viver. E aí é que começa a armadilha. Ignorantes que somos das reais causas do nosso sofrimento, que é a negação da dor e a busca por amor e aceitação, nós passamos a associar o bem estar com a experiência religiosa/espiritual, o que nos leva a querer repeti-la vez após vez. Depois de um tempo, se não prestarmos atenção, teremos levado o mesmo automatismo com que levamos a vida para a prática espiritual. E vamos nos surpreender com a mesma tristeza, ansiedade e infelicidade que tínhamos antes de iniciar essa prática, o que vai reforçar nossas crenças de que a vida é assim mesmo.
Passamos então a ter problema em manter a disciplina nas práticas, e achamos que isso só pode ser um defeito que vamos consertar através da reforma íntima. Atribuímos nossas mazelas aos maus carmas que adquirimos durante eras de reencarnações, que começamos a usar como desculpa para nos manter em situações que não são boas para nós mas que também não sabemos como mudar. Pronto, você acabou de converter a sua prática espiritual numa ferramenta do sistema. Como sair disso?
Precisamos nos lembrar que todo esse sofrimento começa no processo de socialização. Nele você passa a negar suas percepções e emoções para ser aceitável, porque lhe foi incutida a crença que você não merece amor se for do jeitinho que é, você precisa mudar. O processo de socialização é muito violento e doloroso, e as emoções como culpa, vergonha, raiva e tristeza não tem livre permissão para serem expressas, então reprimimos todos esses conteúdos. Nos tornamos uma panela de pressão prestes a explodir. O contato com uma pratica ou filosofia religiosa alivia momentaneamente essa pressão. Mas as emoções reprimidas continuam lá, guardadinhas, esperando o momento de nos dominar novamente. A única maneira de nos livrarmos desse domínio é encarando de frente uma por uma dessas emoções, reconhecendo que são nossas e integrando-as à nossa personalidade, dessa vez com consciência. Isso é o que se define por aceitar-se integralmente, ou seja, reconhecer que temos um tanto de emoções boas e de emoções ruins, que temos muito amor e luz mas temos também um tanto de culpa, vergonha, raiva inveja, etc.
O problema é que, acostumados que somos a priorizar a forma em vez do conteúdo, nós começamos a acreditar que temos que mudar nossos comportamentos para nos adequar ao nosso novo clube. Aí duas coisas podem acontecer. Primeiro: assumimos o comportamento esperado de forma artificial e mecânica, nos tornando extremamente críticos e moralizadores, quando não hipócritas, já que nossos comportamentos não são fruto de uma mudança íntima e sim condicionados pelo grupo social. Segundo: abandonamos aquela prática espiritual achando que somos mesmo muito defeituosos e indisciplinados ou então alegando mil e um motivos para demonstrar o quanto a doutrina, as pessoas, o templo ou qualquer outra coisa ali não são bons. Ambas as hipóteses trazem consigo muita dor e sentimento de inadequação, e não tem uma pessoa específica para se culpar por isso. Nos ensinaram a ser assim e é difícil demais perceber um padrão quando estamos enredados nele.
Particularmente creio que muitos ensinamentos espirituais salutares foram cooptados pelo sistema e distorcidos para nos manterem dormindo. A ideia de reforma intima tão alardeada por pessoas que estão descobrindo o espiritismo kardecista, por exemplo, em vez de resgatar o ser desse mar de "pecados" e vícios em que a pessoa se encontra, muitas vezes acaba se tornando o reforço da voz crítica do papai e da mamãe dizendo à pessoa que o comportamento dela não é apropriado e lhe dizendo que não deve se comportar assim ou assado. Seja caridosa, seja amorosa, seja bondosa, tenha compaixão. Ora, como ser caridosa quando a carência é a tônica da sua relação com a vida, como ser amorosa quando a pessoa não consegue amar a si mesma porque aprendeu que não merece amor, como ser compassiva quando se aprendeu desde pequena que suas atitudes mais instintivas e intuitivas merecem ser punidas, principalmente as que se relacionam com o corpo e o sexo, como ver bondade num mundo que te trata dessa forma, como ser bondosa? Acredito firmemente nas boas intenções desse ensinamento, mas acredito também que enquanto transmitido através de palavras apenas ele torna-se incompleto e ineficaz, porque voltado para resultados, ou seja, comportamentos e posturas adequadas em vez do reencontro com a presença divina que já nos habita, independente de qualquer circunstância.
Todos os comportamentos que se baseiam no amor são adequados. Jesus Cristo não deixou lei maior que esta: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Aí está a solução e a direção daquilo que norteia nossa busca. É "só" isso que precisamos fazer. Amar a Deus, a fonte da vida, acima de todas as coisas, já que temos que apenas o divino é real e transcendente. E amar ao próximo da mesma forma que amamos a nós mesmos, nem mais nem menos. A grande questão é encontrar esse auto amor. Essa busca pelo amor por si mesmo exige desapego de quem achamos que somos, o enfrentamento dos nossos medos, culpas e traumas, exige extravasar todas as emoções negativas que acumulamos em nossos corpos e que envenenam a nós e às nossas relações. Isso é muito difícil, porque envolve a limpeza de condicionamentos muitos profundos onde se baseiam, muitas vezes, nossas noções de identidade e segurança. É um processo vital para nosso crescimento, e ele independe da escolha de um caminho espiritual ou religioso.
Não pretendo aqui invalidar a busca e a prática espirituais, muito pelo contrário. A compreensão desses mecanismos tem transformado a minha maneira de interagir com elas, a compreender o amor desprendido daqueles que dedicam suas vidas à difusão dessas práticas e também perceber a confusão daqueles que não percebem o que fazem em nome da espiritualidade. A conexão espiritual que experimento através da meditação, das práticas xamânicas, da participação em sessões de constelações familiares e do estudo e leitura do tarô potencializam a compreensão que estou adquirindo de mim e dos meus padrões de pensamento e emoções, que se refletem nos meus comportamentos. As mudanças na minha vida são muito consistentes, porque profundas. Tenho mais facilidade para me aceitar mesmo quando erro, e sou menos dependente da aprovação e opinião de outras pessoas. Não sinto necessidade de me comprometer com este ou aquele caminho, ou templo, ou mestre, embora minhas práticas sejam frequentes e regulares e meu amor e gratidão por aqueles que vieram iluminando o caminho aumentem a cada dia. E porque a busca mudou de sentido, não está mais voltada para qual é o caminho correto, mas sim para o caminho que me leva para dentro de mim, que é único e passa por todas as experiências que eu vivo.
O que procuramos sempre está dentro de nós. Que as nossas práticas possam cada vez mais ser um caminho de retorno, de resgate do nosso ser mais puro e divino. Que tenhamos a sabedoria necessária para diferenciar os caminhos ditados pelo ego, que se baseiam muito mais no medo, na carência e na autoafirmação dos caminhos que a nossa alma realmente quer seguir, guiados pelo amor, pela simplicidade e abundância. Que não falte coragem e que nos ilumine a luz do discernimento. Que a divina presença eu sou seja o nosso guia.

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