Há alguns meses li esse texto da monja Coen onde ela fala sobre a questão de gênero no budismo. O trecho a seguir me causou uma forte impressão:
"Recentemente me contaram que certa ocasião o Dalailama, líder religioso e político do Tibet, em exílio na Índia há mais de 50 anos, pediu a uma monja de sua tradição que liderasse a meditação. Ela, depois que todos se sentaram, começou a falar que gostaria que todos os participantes imaginassem que as imagens de Buda fossem todas femininas, que Dalailama fosse uma mulher, que os digníssimos e veneráveis monjes superiores que o cercam fossem mulheres e que, ao contrário do que estava acontecendo, fossem servidas por homens. Ela continuou contando dos problemas das monjas, das discriminações, da falta de oportunidades de estudo e desenvolvimento. Ao terminar, o Dalailama chorava e pedia perdão. Nunca se conscientizara do problema e se comprometeu a trabalhar para a transformação da posição das mulheres dentro do budismo tibetano."
Desde muito nova, muito antes de saber o que significa feminismo, eu já dizia que se houvesse reencarnação eu viria homem da próxima vez. A diferença no trato entre meninos e meninas na família e na escola me fizeram perceber que ser mulher nessa sociedade não era um bom negócio. Com o passar dos anos conheci o feminismo e descobri que eu nunca quis ser homem, mas que tinha algo muito errado na maneira como nós mulheres somos socializadas. Me tornei feminista ao passo que me solidarizei com as histórias de mulheres que eram discriminadas, agredidas, cerceadas em sua liberdade, objetificadas e preteridas em suas aspirações porque eram mulheres. Frequentei coletivos feministas e me comovi com o amor de mulheres que se dedicam a formar uma rede de proteção para suas irmãs e suas crianças em situação de vulnerabilidade e violência. Participei de debates sobre sororidade, sobre a importância de pararmos de competir umas com as outras, de nos empoderarmos. Conheci vertentes mais radicais e mulheres mais radicais, discordei de muitas ideias, tentei explicar porque certos comportamentos eram opressores a homens do meu convívio, mudei meus posicionamentos algumas vezes, e fui ficando cansada de tanta luta conforme eu ia me aprofundando no estudo de mim mesma. Quanto mais eu olhava pra mim mais eu percebia que não adiantava só mudar fora, porque eu havia aprendido a aceitar como normal o ônus de ser mulher nesse sistema. E isso estava tão dentro de mim que era como se fizesse parte do meu DNA. Como eu poderia mudar o sistema se eu não estava conseguindo me modificar?
Percebi então que a luta feminista já não dava conta das minhas demandas, e conheci grupos de sagrado feminino, ao mesmo tempo em que comecei a trilhar um caminho espiritual. Nos meios espirituais que eu frequentava se falava muito sobre a desnecessidade da luta, sobre paz e luz, gratidão e amor, mas algo me incomodava. As vozes predominantes eram normalmente masculinas, e muito poucas mulheres tomavam lugares de liderança. As roupas e condutas femininas eram fortemente controladas, havia uma preocupação constante em não distrair ou provocar os homens. Percebi com muito desgosto que qualquer postura mais tendente ao feminismo era prontamente rechaçada, pois ali não era lugar para isso, "somos todos iguais".
Então surge esse artigo da monja Coen, como um refresco num contexto tão árido. Surge esse relato dessa monja corajosa, pacífica e firme que jogou luz sobre um assunto que todos preferem não olhar. E para mim ficou muito claro que entre a reatividade e a passividade há a possibilidade de uma ação reta. Que falar sobre privilégio não é sinônimo de se falar em vitimização, e que isso não precisa ser uma acusação. A reação do Dalailama também me comoveu. O fato de uma monja estar conduzindo a meditação talvez dissesse a ele que estava tudo ok em relação à questão de gênero, provavelmente a igualdade entre homens e mulheres fosse óbvia para ele. Talvez tenha sido uma grande surpresa para ele descobrir que nunca deu-se conta do quanto as mulheres eram preteridas, e que fosse necessário que uma mulher mostrasse isso a ele. Ele ainda não tinha olhado essa questão pelo outro lado.
Eu acredito firmemente que conforme despertamos e nos libertamos de certas programações inconscientes nos tornamos instrumentos para auxiliar no despertar coletivo. Nos tornamos agentes de transformação na família, nos meios onde frequentamos, na sociedade e no planeta. Passamos a ser parte da cura do feminino e do masculino quando equilibramos essas polaridades em nós. Esse trabalho individual e coletivo pede interiorização, mas pede também posicionamentos firmes e corajosos. Questões como objetificação, controle e sexualização excessiva do corpo feminino, métodos contraceptivos hormonais, privilégios que são concedidos aos homens pelas estruturas sociais, papéis de gênero desde a infância e outros precisam ser olhadas com interesse e sinceridade, e quase sempre será uma mulher a pessoa que vai convidar a essas reflexões. É preciso que ela exerça amor e compaixão para compreender que certos comportamentos masculinos são condicionados e não fruto de maldade intrínseca. Também é preciso que homens mantenham-se receptivos e flexíveis para acolher novos olhares e reconhecer o condicionamento em si, bem como descobrir formas mais amorosas e justas de tratar as mulheres. Acredito que o contexto de um caminho sincero de busca pelo conhecimento de si mesmo é um ambiente fértil para esse tipo de reflexão.
A mente corrompe nossas melhores intenções, e é muito delicado para uma mulher falar em privilégio sem se sentir prejudicada, ou para um homem ouvir sobre isso sem se sentir atacado ou julgado. Sem percepção, amor e compaixão é muito fácil descambar para uma discussão ideológica em que as pessoas podem se tornar reativas , vestindo sem querer os papéis de vítima e algoz que tanto rejeitam e negam. Falar e ouvir conectados com a essência, presentes, compreendendo que abandonar a mente condicionada é um trabalho individual e que é desconfortável, mas que nos torna mais livres e atentos. Nesse estado é possível não se identificar com os papéis e ideologias e modificar a si mesmo por vontade, e não por imposições ou julgamentos. O resultado é o fortalecimento da conexão entre as pessoas e uma sensação de que aumenta o próprio poder pessoal, à medida em que se conscientiza e se sente mais livre para simplesmente ser.
Expandir a consciência sobre o que nos cerca quase nunca é fácil. Escolhemos ser a mudança em vez de esperar que ela aconteça, e acredito que esse é um caminho sem volta, pois aceitamos essa responsabilidade. A cura do masculino e do feminino, bem como o reencontrar equilíbrio dessas energias faz parte dessa jornada. Caminhemos, portanto.


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